(Contém spoilers)
Vou ser sincero: eu não lembrava de muita coisa da primeira temporada. Só que isso não foi problema, porque a série faz um ótimo trabalho em relembrar os fatos principais por cima, sem perder tempo demais com recapitulação e sem deixar quem esqueceu perdido. Um detalhe muito legal é a coincidência dos dois protagonistas se chamarem David. Dá a sensação de que a história está conversando com a anterior, em vez de só continuar ela.
O que mais me ganhou foi o elenco. Quase todo personagem tem um arco que faz sentido, e as decisões deles têm consequências de verdade. Vou falar dos principais.
O Roman
O Roman Carax é o elo que une os personagens principais, e foi uma das melhores escolhas da temporada. Ele é um cinéfilo de 12 anos que carrega câmeras analógicas e tenta documentar histórias reais em Night City, uma cidade que abandonou o cinema em favor das neurodanças. Numa história cheia de gente consumida por vingança, implantes e obsessões, ele é um vislumbre de inocência, e é justamente esse contraste que o torna tão marcante.
Ao mesmo tempo, ele não é ingênuo demais. A personalidade dele é cautelosa e determinada, e ele corre atrás do que quer sem perder a gentileza. A partir dele, o D, a Talia e o Weak acabam se conectando, sem que isso pareça forçado.
Achei bem interessante a escolha de manter o passado dele em segredo. O produtor Bartosz Sztybor explicou que o pai do Roman, um barbeiro que confia no filho, não terá a história aprofundada, porque mostrar mais detalhes tiraria a impressão de inocência e esperança que o personagem representa. Eu concordo: o mistério deixa o Roman mais simbólico do que se fosse explicado.
O D e a vingança
A história do D é muito parecida com a do Sasuke, de Naruto, a ponto de ser difícil não fazer a comparação. Os dois partem do mesmo ponto: o clã foi massacrado, e a vingança se torna a única razão de existir. Em ambos os casos, essa busca consome o personagem e o isola de tudo o que poderia importar para ele.
O que me conquistou foi a forma como o D ressignifica isso ao longo da trama. Quando percebe que toda aquela vingança foi em vão, ele não fica preso ao passado e muda o foco para a Capri, por quem acaba se apaixonando. O arco deixa de ser sobre o que ele perdeu e passa a ser sobre o que ele ainda pode ter. Em Cyberpunk, onde quase ninguém escapa do próprio destino, ver um personagem encontrar um novo sentido tem um peso ainda maior.
A Capri
A Capri, ou Projeto Capricorn, é uma das ideias mais interessantes da temporada. Ela é uma IA desenvolvida em segredo pela Arasaka, mas que foge do conceito tradicional: em vez de uma máquina autônoma, é um construto de personalidade formado pela fusão de consciências humanas digitalizadas, via tecnologia Soulkiller. Isso a transforma em uma entidade com vontade própria, feita de várias pessoas ao mesmo tempo.
O poder dela é assustador. A Capri consegue acessar a Blackwall e manipular a matéria e os dispositivos eletrônicos ao redor, o que a torna uma arma de destruição em massa. Só que ela depende de um hospedeiro humano, ligado a ela por um biochip, porque sendo uma coletividade de psiques não consegue existir nem usar seus poderes plenos sem um corpo físico. É por isso que o D e depois a Talia acabam virando hospedeiros.
Esse detalhe dá ainda mais peso ao arco do D. Ele se apaixona por uma entidade que é, ao mesmo tempo, uma arma, uma coletividade de pessoas mortas e uma pessoa por si só.
O Weak
A trajetória do Weak é uma das mais pesadas da temporada. Ele sofre uma cyberpsicose e, durante o surto, acaba matando a própria equipe de mercenários. Só sobrevive porque o Trauma Team consegue recuperá-lo, mas, para continuar vivo, precisa remover quase todos os implantes. Num mundo em que o corpo é a ferramenta de trabalho, isso significa perder a identidade que ele construiu.
Nesse estado, ele reencontra a ex-namorada, a Avida, que pede ajuda para salvar a filha dela e diz que a menina também é filha dele. É assim que ele se aproxima da Talia, tentando salvar a "filha". As aspas fazem sentido, porque no final descobrimos que o pai biológico dela é o Kiril Yang. Documentos e exames de DNA confirmam isso, e a Avida tinha convencido o Weak de uma mentira.
O que torna o arco bonito é o que ele faz com essa revelação. Mesmo sem ser o pai de sangue, ele continua ao lado da Talia, inclusive durante o tratamento dela depois da morte do Kiril. Para um homem que perdeu a equipe, o corpo e o status, ser uma figura paterna para ela acaba sendo o que lhe dá um novo sentido.
A Talia
Outra evolução que me pegou foi a da Talia. No começo, ela não se importava com nada além de colocar implantes no corpo e nem ligava se isso pudesse fazer mal a ela. Com o tempo, ela se apega à vida e às relações que construiu ao longo do anime. É o oposto do que se espera de um mundo como o de Cyberpunk, onde as pessoas se descartam junto com o próprio corpo.
A polêmica com o Roman
Vi no Twitter uma discussão sobre a relação da Talia com o Roman. Dá para entender de onde vem a crítica: ele tem 12 anos, e a idade da Talia nunca é confirmada. Ela se diz adolescente, mas o visual dela passa a impressão de alguém mais velha, e essa ambiguidade alimenta o debate. O que eu vi na tela foi uma conexão que vai crescendo ao longo da temporada, e o próprio Roman deixa claro que eles não estão namorando. Mesmo assim, entendo quem se incomodou, porque a série deixa essa dúvida no ar. Acho que a discussão é válida, e é um sinal de que os personagens geraram reação no público.
A Kyouko
Outro personagem que me chamou a atenção foi a Kyouko. Ela tinha uma obsessão em fazer o Projeto Capricorn dar certo, e essa obsessão foi tão longe que ela deu a própria vida por isso. É um tipo de personagem que combina muito com o universo de Cyberpunk, em que dedicação extrema ao próprio objetivo vira uma armadilha. Ela se perde no projeto e paga o preço máximo. Achei interessante como ela funciona de contraste com os outros: enquanto o D e a Talia se afastam do que os consumia no começo, a Kyouko vai até o fim com o que a consumia.
O Kiril Yang e a Kang Tao
Nesta temporada, a Kang Tao é a grande antagonista corporativa, e o Kiril Yang é a cara dela. Ele é um executivo de alto escalão, marido da Avida e pai biológico da Talia. A família dele está no centro da história, mas, como acontece em Cyberpunk, a corporação sempre vem antes de qualquer laço familiar.
A Kang Tao financia a equipe do King (Miguel, Megusha e Emily) para roubar o data-chip que contém a Capri. Depois, a empresa tenta reiniciar o projeto em segredo, usando primeiro o D e depois a Talia como hospedeira. É isso que liga os personagens: o D, o Weak, a Talia e até a Kyouko giram em torno da mesma arma.
O clímax tem uma ironia cruel: a Kang Tao autoriza um ataque aéreo nas Badlands para destruir a Capri, e o ataque acaba matando o Kiril. A corporação sacrifica um dos próprios executivos, pai da menina que ela estava usando como hospedeira. Para mim, isso resume bem o que Cyberpunk quer dizer sobre corporações: ninguém dentro do sistema está seguro, nem quem trabalha para ele. E o ataque ganha um peso a mais por mirar a Capri, a "pessoa" por quem o D se apaixonou.
Conclusão
Minha parte favorita da temporada foi o desenvolvimento dos personagens. O Roman liga todo mundo, o D troca a vingança por algo que vale a pena, a Talia passa a se importar com a vida, o Weak encontra um novo propósito, e a Kyouko e o Kiril mostram o que o sistema faz com quem se entrega demais a ele. Como só vi os animes, não sei como esse universo funciona no jogo, mas Night City, só pelo anime, já é absurdamente foda: opressiva, estilosa e perigosa ao mesmo tempo.
Nota: 9/10 uma temporada muito boa, que honra a primeira, tem personagens bem desenvolvidos e deixa vontade de conhecer mais do universo.
Btw me sigam no Bluesky e no X/Twitter










Comentários
Postar um comentário
Tags HTML que você pode usar nos comentários:
<b>TEXTO EM NEGRITO</b>
<em>TEXTO EM ITÁLICO</em>
<a href="LINK">TEXTO DO LINK</a>