A verdade é que está cada vez mais difícil de assistir anime.



Eu sou do tempo em que assistir anime dava trabalho. Ou você ia a um evento, ou esperava umas 12 horas de download para ter 2 episódios em RMVB/AVI, ou se contentava com o pouco que passava na TV aberta. Era sofrido, mas era assim que a gente fazia.

Hoje parece que vivemos no paraíso. Tem anime a qualquer hora, no celular, na TV, onde você quiser. Só que tem uma coisa que me assusta: a quantidade de lost media que está aparecendo por aí.

A biblioteca infinita que não é tão infinita

Os streamings prometeram acesso total, mas muitos têm catálogos bem menores do que o da época dos fansubs e dos sites de anime. Isso é um problema sério. Quem está começando agora no hobby não consegue assistir a fenômenos de décadas passadas, como Suzumiya Haruhi e Lucky Star. Esses animes marcaram uma geração e, para muita gente nova, simplesmente não existem.

Boa parte disso vem de licenciamento. Obras antigas têm direitos espalhados entre produtoras, comitês e distribuidoras, e para o mercado não compensa pagar para licenciar um título de nicho. O resultado é que o anime fica sem lugar legal para assistir.

E tem uma ironia nisso tudo: quando a obra some do mercado, o que costuma preservá-la são os arquivos dos fãs. A memória do anime depende justamente da comunidade que as empresas combatem.

Pirataria é problema de serviço

O streaming veio para resolver o problema, mas criou outro: a falta de acesso. Para acompanhar tudo, você precisaria de várias assinaturas, e no Brasil isso pesa no bolso. Acaba ficando parecido com a TV a cabo que o streaming dizia substituir.

Então muita gente volta para a pirataria, e eu não acho que seja por falta de vontade de pagar. Tenho certeza de que, se existisse um jeito de assistir ao meu anime ou filme favorito por um preço justo, ninguém reclamaria e todo mundo usaria. O público não rejeita pagar. Rejeita pagar caro por um catálogo que não tem o que ele procura.

Nem a Crunchyroll escapa

O que mais me incomoda é a Crunchyroll. Ela deveria ser a casa dos animes, e não é. Tem lacunas de catálogo e problemas de qualidade, e a gente espera muito mais de quem se propõe a ser a plataforma definitiva do gênero.

E as legendas? Saudade dos fansubs

Outra coisa que me incomoda é a qualidade das legendas. Na época dos fansubs, grupos como a Anime no Sekai faziam um trabalho feito por fã, para fã. A tradução era cuidadosa e, quando a cena tinha uma piada, uma referência ou um costume japonês difícil de entender, aparecia uma nota explicando o contexto na tela. Eles ainda traduziam as aberturas e os encerramentos, coisa que quase ninguém faz hoje. Dava para perceber que quem legendava gostava do anime.

Hoje, em muitos streamings, o que se vê é legenda seca, com erros, frases que não soam naturais em português e termos traduzidos de qualquer jeito, às vezes direto de outra tradução em inglês. Quando a legenda falha, o anime perde parte da graça, e isso pesa muito em comédias cheias de trocadilhos e referências, como as que citei acima.

É curioso: o serviço que se diz profissional muitas vezes entrega menos cuidado do que o grupo de voluntários que fazia aquilo por amor ao anime.

O que eu queria ver

  • Catálogos permanentes de animes clássicos, com preço baixo
  • Mais flexibilidade de licenciamento para o Brasil
  • Opção de compra definitiva, sem depender só de assinatura
  • Apoio de estúdios e distribuidoras à preservação digital das obras

Desabafo final

Isso aqui é o desabafo de um otaku velho que só quer assistir aos seus animes de boa e está ficando sem acesso. Vivemos na era da abundância, mas o que a gente ama pode sumir de uma hora para outra. Tempos sombrios...

E você, já tentou assistir a algum anime antigo e não achou em lugar nenhum? Conta aí nos comentários qual foi!

No próximo episódio...

E já que estamos falando de acesso, existe outro assunto que está diretamente ligado a tudo isso: o fim das mídias físicas. Será que daqui a pouco não vamos ter mais nada para chamar de nosso, só licenças que podem sumir de um dia para o outro? Mas isso fica para outra oportunidade. Aguarde!


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